sábado, 14 de junho de 2008

NINGUÉM CHORE SOZINHO


A vida é bonita como uma flor. Viver é bonito que nem um passarinho. É do jeito dos olhos e do olhar. Colorido, preto e branco como se quer. Pedra e pau, algodão e fumaça. Cabriola e requebro, rodopio e ponto de chegada. Vai e volta. E por ser ela, nem vai nem volta. Estanca nas emoções que são os confeitos da própria vida.
A vida é o menino mijando no fundo do quintal, o caramelo na boca, a sacristia, o perdão do copo da cachaça, a mulher nua, o homem de gravata, o peito empinado, o seio de mamar, a lágrima e o véu, o coração e o pio, a pena e a asa, mesmo assim, um passo, mergulho sem fundo. A vida é vez. E toda vez é vez. Nem que seja pelo avesso. Que frente e costa têm cor. Nos arco-íris de fora e de dentro.
A vida é doce que nem lágrima salgada. É um rio no rosto que espera. Um caminho de bocas e de silêncios. Vestido rendado e calça curta. Véspera e luz. Nos arredores do tempo, os canteiros se enchem de flores e pingam espinhos, que flor e espinhos, que flor e espinho são da mesma oração. A vida é bonita como uma flor eterna em cada pétala que cai. E se debruça no chão, o orgasmo da fome.
Pois a vida é fome e pétala, é rosa e canteiro, parto e aborto, explosão e desmaio, o cisco no canto do olho, a cadeira de rodas, a espingarda, o gatilho das esperanças, a esmola e a mão cheia. O pinico e o prato, o pé, o sapato, o cabelo e a queda, o baile e o sereno, o vestido e o nu. Os dedos desencontrados que enganam a magia das mãos...
Por tudo isso me calo. Perco a voz. Esqueço o silencio. Que a voz é vôo. Canto as minhas alegrias e me deito nos meus recantos. Todos eles cheios de estradas e de mim mesmo. Canto a vida, o vai-e-volta das cavernas, a árvore e o tronco, a minha ilusão das catedrais e dos morcegos, o vôo surdo das asas noturnas, o roçar das pernas flutuantes nas beiras da noite. Por tudo isso eu não me calo. Adejo, flutuo, nos morcegos e nas andorinhas que misturam as imagens das criaturas.
Por tudo isso eu calo e não me calo. A dor do sapato se muda na dor da estrada, pois a vida é bonita que nem uma flor. Estes passos dos dedos, das unhas, das estrias, dos riachos da alma, pedaços de tudo que escorrem para dentro de mim. É vez de ver, de escutar, de sombra e luz. A luz debaixo dos meus pés, que os pés se multiplicam nas veredas, gosto dos caminhos maiores.
Por isso, a vida é maior. Pois pergunto ao tronco e à folha, a razão de cada um, pauta e escala musical, onde verdadeiramente estou, onde verdadeiramente estamos. Talvez na pétala ou no espinho, no tronco ou na folha, no tronco da moeda, no espelho de todas as imagens. De resto, que ninguém chore sozinho.

In memoriam

‘Robério Maracajá’

Um Meio ou uma Desculpa - Roberto Shinyashiki

Por vezes me fazem chegar artigos, e opiniões deveras interessantes, como foi o caso deste “Um meio ou uma desculpa” remetido por uma amiga especial, e que não podia deixar de compartilhar convosco.
‘João Massapina’

Um Meio ou uma Desculpa

Não conheço ninguém que conseguiu realizar seu sonho, sem sacrificar feriados e domingos pelo menos uma centena de vezes.

Da mesma forma, se você quiser construir uma relação amiga com seus filhos, terá que se dedicar a isso, superar o cansaço, arrumar tempo para ficar com eles, brincar, fazer lição, deixar de lado o comodismo.

Se quiser um casamento gratificante, terá que investir tempo, energia e sentimentos nesse objetivo.

O sucesso é construído à noite! Durante o dia você faz o que todos fazem.
Mas, para obter um resultado diferente da maioria, você tem que ser especial.
Se fizer igual a todo mundo, obterá os mesmos resultados.

Não se compare à maioria, pois, infelizmente ela não é modelo de sucesso, CONFIE EM SI MESMO.

Se você quiser atingir uma meta especial, terá que estudar no horário em que os outros estão tomando chope com batatas fritas.
Terá de planejar, enquanto os outros permanecem à frente da televisão.
Terá de trabalhar enquanto os outros tomam sol à beira da piscina.

A realização de um sonho depende de dedicação, há muita gente que espera que o sonho se realize por mágica, mas toda mágica é ilusão, e a ilusão não tira ninguém de onde está, em verdade a ilusão é combustível dos perdedores pois...

Quem quer fazer alguma coisa, encontra um MEIO. Quem não quer fazer nada, encontra uma DESCULPA.

‘Roberto Shinyashiki’

TAPA NA CONSCIÊNCIA

Quando a conheci, ela já estava com câncer. Havia retirado um seio, que não fazia a menor falta à sua beleza. Esse era um assunto que eu procurava evitar, não obstante o interesse em saber como tudo tinha acontecido.
Um dia, ela me disse:
“Quando soube que estava doente tive que me submeter a uma mastectomia. Foi um choque. Uma mudança que não ocorreu só no corpo, mas em todo o meu ser. Depois, percebia que já era outra pessoa, pois via tudo completamente diferente.”
“Veio a quimioterapia, fiquei careca, mas encarei tudo com um surpreendente realismo. E conclui que tinha que seguir a seqüência.”
“Seguir a seqüência”... esta frase até hoje se repete na lembrança que tenho da minha amiga. Conhecê-la foi uma das melhores lições que tive na vida. Incrível como naquele olhar havia tanta beleza e esperança capazes de passar por cima de qualquer tristeza.
“Germano, ao constatar que nem sobre a própria vida temos posse alguma, vi que o grande ensinamento é o desapego, e comecei a doar minhas coisas. Era um exercício difícil porque eu procurava me desfazer primeiro daqueles objetos de que mais gostava. Isso foi muito bom porque me sentia mais independente; mais solta e livre de presilhas e ilusões...”
E mudou radicalmente a alimentação. Procurava comer grãos integrais e coisas naturais, o que lhe dava mais lucidez e percepção das verdades, além de alguns anos de sobrevida. Como uma coisa puxa a outra, a paz que o arroz integral lhe deu completava-se com leituras zen-budistas.
“Quando mamãe me trouxe uma peruca para esconder a minha careca, achei muita graça. Mas o espelho censurou-me: Não Julia, nada de mascaras, a realidade não é esta. Ademais, eu também tinha que me desapegar da imagem que guardava de mim mesma e para os outros. E dei a peruca para os meninos brincarem. Foi muito engraçado”.
Certo dia ela tateava a nossa estante e deparou-se com um livro que lhe interessou. “Posso pegar emprestado?”. “Sim, claro, leve-o, é muito bom!” Passadas algumas semanas, agora era eu quem ‘voejava’ na sua biblioteca. E veio-me a lembrança do livro emprestado. “Julia, você já terminou de ler aquele livro de Rajneesh?”. “Terminei, sim, é que emprestei a um amigo meu”. Inicialmente aquilo me inquietou. Afinal para os padrões “normóticos” de etiqueta ninguém deve emprestar algo de outrem sem a devida permissão. Calei-me e mudei de assunto.
Semanas após, novamente em sua casa, lembrei do livro e tornei a perguntar por ele. Mas, ela respondeu. “Ah, o livro agora está com outro amigo”... Confesso que aquilo me desapontou, pois ainda não era tão “zen”, e tão desapegado das coisas tal qual ela.
“Mas, Julia, que coisa! Isso não se faz. Quem já viu emprestar algo que não é seu, e há tanto tempo que era para você tê-lo devolvido”...
“Amigo, livro é pra circular. Não há crime maior do que deixá-los parados numa estante”...
Aquilo foi uma tapa na minha consciência. Uma lição de que me lembro até hoje, e dada por quem mais autoridade não podia ter...

‘Germano Romero’

SONETO

No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida, E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. E espuma e ruge a cólera entranhada, Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida, Espumando e rugindo em marulhada. Mas se das minhas dores ao calvário, Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário, Em luta co’a natura sempiterna, Já que do mundo não vinguei-me em vida, A morte me será vingança eterna.

Augusto dos Anjos

SOBRE A AMIZADE – 1

Engraçado, eu sempre fiquei pensando em que momento da vida foi criado esse sentimento… A amizade. Quem será que compôs o primeiro par de amigos da face da terra? Fico imaginando que eles devem ter tido muitas dificuldades nesse relacionamento, afinal, foram os pioneiros em dar carinho, aparar arestas, serem muitas vezes incompreendidos e ainda assim estarem sempre de braços abertos para receber o outro quando preciso.
Bom, mas o tempo passou e hoje já sabemos muitas coisas sobre amizade. Há de entender-se que a amizade não é algo somente que nos traz alegrias e esse é o maior desafio dela. Há de aceitar-se que se pode ter amigos diferentes de nós, em raça, religião, temperamento, criação, cultura. Isso na verdade não é importante na amizade, nem chega a ser um obstáculo. Há de saber-se que as regras principais da amizade são o respeito, a consideração, a tolerância e a humildade.
O respeito é primordial, aliás, em qualquer tipo de relacionamento ele faz-se necessário. Pessoas têm seus limites e esses limites devem sempre ser respeitados. O fato de termos amizade e intimidade com alguém, não nos dá o direito de violar certas regras que estão implícitas em uma amizade.
A consideração é um fator muito importante também. Não adianta sermos tudo de bom para alguém e nos momentos mais delicados e necessários para esse alguém, não termos a consideração que se resume na atenção devida. Espera-se mesmo que a amizade, como qualquer outro sentimento, seja uma via de mão dupla. No existe a possibilidade de só darmos, jamais recebermos e ainda assim sermos realizados nesse sentimento. Não se trata de um “toma lá dá cá”, mas trata-se de um “lembro-me de que quando eu precisei você esteve comigo, portanto gora você precisa e eu aqui estou”, e isso há de ser feito com um sorriso nos lábios e muito amor no coração.

‘Brígida Brito’

DO RIO

“Ser como o rio que flui
silencioso no meio da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se enchem de nuvens
como o rio,
as nuvens são água;
refleti-las também, sem mágoa,
nas profundidades tranqüilas”.

‘Manuel Bandeira’

DO PERDÃO

Dois ex-presos políticos argentinos se encontraram, depois de muitos anos sem qualquer contato.
Sentaram-se em um bar na Avenida de Maio e começaram a lembrar os anos negros da repressão, quando as pessoas sumiam sem deixar vestígio. A certa altura, um perguntou ao outro:
- Quanto tempo você ficou preso?
- Dois anos. Sofri torturas que nunca imaginei. Vi minha mulher sendo violentada na minha frente. Mas os responsáveis já foram presos e condenados.
- Ótimo. E sua alma já os perdoou?
- Claro que não!
- Então, você ainda continua prisioneiro deles.

‘Paulo Coelho’

DO DESÂNIMO

Os “Guerreiros da Luz” não se deixam contagiar pelo desânimo coletivo.
Existe uma espécie de “economia cósmica”, e os guerreiros sabem que o desânimo é uma coisa inflacionária.
Quando as pessoas desanimam, abrem uma porta que em pouco tempo emperra e fica difícil de fechar.
Então, a doença do desânimo começa a se espalhar pela casa, pela vizinhança, pelo bairro, pela cidade, e pelo país.
Quanto mais desânimo encontramos em nosso caminho, mais desanimados ficamos.
Numa mórbida troca, pessoas infelizes se alegram quando podem colaborar mais para a infelicidade coletiva. Tudo passa a ser pior, e a “inflação” do desânimo se torna incontrolável.
Os “Guerreiros da Luz” não desanimam. Não perdem tempo reclamando da vida, procuram transformá-la num bom combate.

‘Paulo Coelho’

DAS DEFINIÇÕES

Dois mestres indianos e um grafitti definem o amor:
Osho: “Dar amor é a experiência real - no próprio sentido da palavra, porque você se comporta como um imperador. Implorar amor é uma experiência de mendigo. Não aja como um mendigo; seja sempre um imperador”.
Nisargadatta Maharaj: “o sofrimento vem do desejo. E o sentimento de unidade nunca pode ser frustrado, o que se frustra é o desejo de reconhecimento. Como todas as coisas puramente mentais, este desejo é uma armadilha”.
Escrito num muro em Buenos Aires (e anotado por Fabiana Riboldi): “Se amas alguém, deixa-o em liberdade. Se ele voltar, foi porque precisou. Se ele não voltar, foi porque precisou”.

‘Paulo Coelho’

DAS BÊNÇÃOS

Duas coisas não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
Num espaço ocupado pela amargura e pelo medo, as bênçãos não conseguem entrar. Mesmo que elas batam na porta, e mostrem a luz que carregam com elas, a porta não se abre.
A alma precisa estar limpa, para que as bênçãos se manifestem.
Por isso é preciso lavar a alma com esperança. Neste processo, nós nos lembraremos de velhas tristezas, e sofreremos de novo a mesma coisa - mas sabemos que as bênçãos estão chegando.
E um dos principais poderes das bênçãos é a capacidade de curar a dor.
Uma alma limpa é aquela que, apesar de tudo, não está conformada com a situação atual. Uma alma limpa é uma alma corajosa, que - mesmo lutando contra as trevas, deseja encontrar a luz.

‘Paulo Coelho’

DA CAVALARIA

“Receba aquele que o procura, e não corra atrás de quem o rejeita. Desta maneira, você estará criando um laço de harmonia com o seu semelhante”.
“Um noviço não deve ser expulso por causa de suas faltas. Quando alguém está fazendo um esforço para melhorar, isto deve ser apreciado e honrado por todos”.
“Um estranho não deve ser aceito por causa de suas qualidades. Quando vemos alguém muito ansioso para mostrar como é bom e compreensivo, precisamos testá-lo com severidade. Porque ele busca aplauso para seus gestos, e pode ter perdido a humildade”.
“Vá sempre além das aparências. Escute. Veja. E confie em suas impressões”.

‘Paulo Coelho’

DA ALMA

“A minha alma crescerá sempre, mas mesmo assim,
nunca chegará até um lugar
onde não poderei segui-la.
Quando acordo de noite, e caminho pela praia,
quando olho para cima e contemplo a infinidade de estrelas,
pergunto ‘a minha alma:
‘quando eu morrer, e você estiver lá, e puder conter todo este Universo, estará satisfeita?’
E minha alma responde:
‘quando eu chegar lá, saberei que posso crescer ainda mais’”

Do livro de notas de Walt Whitman (1819-1892)

AMIGOS LOUCOS E SÉRIOS

Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angustias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco. Louco que senta e espera a chegada da lua cheia. Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. No quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Pena, não tenho nem de mim mesmo, e risada, só ofereço ao acaso.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia no desapareça. Não quero amigos adultos, nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice.
Crianças, para que no esqueçam o valor do vento no rosto e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

‘Marcos Lara Resende’

terça-feira, 10 de junho de 2008

ROSA: A MEMÓRIA EM CARTAS

O corrente ano de 2008 é rico, em prosa e verso, com datas e efemérides que fizeram e/ou fazem a história, aqui e alhures.
Assim, por exemplo, há duzentos anos, fugindo das botas do poder de Napoleão Bonaparte, a família real deixa Portugal, optando por viver no Brasil.
Depois, há exatos cem anos, morria Joaquim Maria Machado de Assis, a pena mágica do romance brasileiro.
Igualmente, em 1908, isto é, há um século, nascia em Minas Gerais, Brasil, o diplomata e escritor João Guimarães da Rosa, o revolucionário e moderníssimo autor de “Grande Sertão e Veredas”, marco de um novo tempo na lingüística nacional brasileira.
Por outro lado, no Velho Mundo, em 1968, quarenta anos atrás, a rança tremia ante o movimento estudantil, que pregava, entre valores, o respeito à legenda de que “é proibido proibir”.
Ainda no tumultuado ano de 1968, tropas russas invadiram Praga, e, no Brasil, o AI-5 podava o Judiciário, fechava o legislativo e amordaçava a democracia.
Hoje, porém, cicatrizadas as feridas institucionais, as letras brasileiras registram cartas inéditas de Guimarães Rosa, dirigidas a Mário Calábria, igualmente diplomata, e colega de oficio no Itamaraty.
Os textos – é obvio – espelham o talento, a imaginação criadora e o processo de antenada identificação de Guimarães com a sociedade a cultura, os costumes e a vida do Brasil.
As cartas, hoje, nas mãos do poeta Alexei Bueno, são testemunhos que precisam de uma mais rápida divulgação.
Conforme redenhou respeitável órgão de mídia nacional brasileira, em uma das suas missivas, o autor de “Sagarana” observa: “Com a idade, meu caro, a gente vê que esta vida é vertiginosa. Como abarcá-la, de forma disciplinada, ou mesmo apenas plausível? Recorro a Platão, a Plotino. Você ainda não me compreendeu”.
Para concluir: “O importante não é o além, intrínseco (...) mas para fins de permitir à gente acentuar um pouco isto aqui. E você mesmo, prepare-se. Ao beirar os 50, você está seguramente sacudido”.
Aliás, pela boca de Riobaldo Tartarana, o caboclo-narrador de “Grande Sertão e Veredas”, ele filosofava: “Eu de quase nada sei,mas desconfio de muita coisa”.

‘Paulo Gadelha’

NAMORAR OU FICAR?

As relações entre namorar e ficar revelam a complexidade da condição humana, são vivências de situações e diferentes significados. A atração entre pessoas obedece a certos princípios e responde a questões chave na individualidade de cada pessoa, outrora se ouvia falar em flerte, namoro, noivado e casamento. Atualmente, ficar é um comportamento muito adotado, onde o que vale é o aqui e o agora, o prazer imediato, sem vínculos, é como se pode dizer, uma fase exploratória, de experimentação.
Ficar é um momento vivido, onde a atração e a repulsão costumam promover reações físicas momentâneas, sem compromisso, onde os motivos são os mais diversos, como por exemplo: a curiosidade, um estágio para quem esta começando a sexualidade, uma competição para ver quem fica com mais pessoas, uma sensação de poder fazer um serie de conquistas ou fazer parte do grupo dos “ficantes”, é uma troca de carinhos por um período curto, sem compromisso de namoro, sem o compromisso do dia seguinte.
O namoro é uma aliança entre pessoas que querem se conhecer melhor, em torno de vivencias peculiares a cada ser humano, é um momento relevante na vida de cada pessoa, onde as escolhas são mais profundas, onde a afetividade aparece com mais desenvoltura, é um momento de experimentação, de treino que o adolescente passa entre a fase da infância, quando recebe passivamente o afeto, e a fase adulta, de envolvimento afetivo-sexual, é o momento em que se promete tudo, mas não se dá nada.
Hoje em dia, esse aspecto constitui uma tarefa difícil para os pais e educadores, porque é chegado o momento de pontuar a autoridade e as decisões tomadas em relação ao educando, é chegada a hora das grandes paixões, frágeis e inconstantes, é o momento de substituir o amor “espiritual” de pai e mãe, avô, avó, etc, pelo amor de desejos proibidos, capaz de criar o risco do descontrole.
Nesse momento é importante os pais mostrarem que os seus filhos merecem um investimento, que existe uma sintonia entre o que eles pensam e agem e a; beleza, a sensibilidade, a fantasia que os jovens alimentam secretamente. É chegado o momento de abrir o diálogo, estimular perguntas e conversar sobre todos os temas, aproveitando inclusive os debates polêmicos dos programas de TV, saber ouvir assumir a sua condição de ser humano que não sabe tudo mais que vai procurar o melhor momento para deixar aberto o canal da comunicação.
A paixão experimentada pelos adolescentes nessa fase produz energia e entusiasmo pela vida, contribuindo, inclusive, para a formação da personalidade. A possibilidade de dar e receber amor alimenta a; auto-estima, conduzindo os jovens ao equilíbrio emocional. É preciso ficar claro que namorar ou ficar representa a primeira fase do “outro”, onde a libido é reinvestida em objetos externos, supostamente capazes de corresponder às realizações criadas pelo seu imaginário; onde ele se sente capaz de amar, com suas reações individuais, de reagir aos estímulos sofridos nessa fase, de querer interpretar as atitudes dos pais, passando então, a elaborar as suas perdas nesses relacionamentos.

‘Ionara Dantas e Gilvando Estevam’

MUDAR É PRECISO

Em decorrência da globalização, do transito rápido de informações em todo o mundo e também da expansão do mercado em nível mundial, todos se vêem na obrigação de adotar padrões de eficiência universais. E, em decorrência desta louca correria e agitação, todos têm de correr bastante para acompanhar os desenvolvimentos ligados à sua carreira profissional ou a outras que a afetam. É necessário modernizar os recursos produtivos, métodos, processos e até a forma de pensar, sentir e agir.
Pessoas que querem crescer e se manter no mercado de trabalho precisam acompanhar a evolução, isto é, precisam querer se manter atualizadas, fazer esforços necessários para isso e estarem dispostas a abrir mo de velhas práticas e a incorporar o novo.
Inovar não é sempre fácil, pois exige o abandono de práticas às quais estávamos habituados, o que nos causa incerteza e desconforto. Precisamos aprender novas tarefas, novos modos de executar as tarefas antigas, novas formas de usar recursos e novos equipamentos. Precisamos perder o poder relativo adquirido pelo domínio das tarefas, o que exige dedicação de tempo para o aprendizado.
Algumas atitudes podem ser tomadas para tornar a situação – além de fácil - prazerosa e também servir para destacar talentos e aproximar pessoas. A comunicação facilita a troca de experiências e informações e estimula a geração de idéias. Pessoas do grupo devem ter coragem de sugerir, propor mudanças e até mesmo criticar produtivamente pois, muitas vezes, daí é que saem soluções incríveis!
É de suma importância perguntar, questionar, pensar e se comprometer para atingir o sucesso em tudo que fazemos. Nessa época de mudança, é preciso que nos envolvamos em nossos causas. Que participemos mais. Que ousemos mais. Que sejamos mais guerreiros, no melhor sentido da palavra.
É um engana acreditar que funcionários e acomodados correm menos riscos. Corre risco quem não se envolve, quem não participa, quem não opina, quem quer permanecer sempre distante da luta pela conquista do crescimento e do sucesso.
Num mundo agitado como o nosso, é preciso que todas as pessoas encontrem tempo para ler, estudar, aprender e, consequentemente, crescer.
Sei que as tarefas do dia-a-dia nos fazem achar que é quase impossível conseguir encaixar algo em nossa agenda, mas a verdade é que um curso, um seminário ou uma palestra podem nos abrir novos horizontes, apresentar novas pessoas, e muitas vezes, nos dar ferramentas que facilitam neste momento de novos processos.
Hoje não é o maior que vencerá o menor, mas sim o mais rápido vencerá o mais lento – e quanto mais rápida for a nossa capacidade de nos adaptarmos a mudanças, maiores serão as nossas oportunidades de vencer!

‘Rocha & Coelho’

INVENTARIO DA NORMALIDADE

Resolvi fazer uma pesquisa com meus amigos sobre aquilo que a sociedade considera um comportamento normal. A seguir, listo alguns destes absurdos com que convivemos todos os dias, porque a sociedade considera normal:

1 – Qualquer coisa que nos faça esquecer a nossa verdadeira identidade e os nossos sonhos, e nos faça apenas trabalhar para produzir e reproduzir.

2 – Ter regras para uma guerra (Convenção de Genebra).

3 – Gastar anos fazendo uma universidade, para depois não conseguir trabalho.

4 – trabalhar das nove da manhã ás cinco da tarde em algo que não dá o menor prazer, desde que em 30 anos a pessoa consiga aposentar-se.

5 – Aposentar-se e descobrir que já não tem mais energia para desfrutar a vida, e morrer em poucos anos, de tédio.

6 – Uso de botox.

7 – Procurar ser bem sucedido financeiramente, ao invés de buscar a felicidade.

8 – Ridicularizar quem busca a felicidade ao invés do dinheiro, chamando-o de “pessoa sem ambição”.

9 – Comparar objetos como carros, casas, roupas, e definir a vida em função destas comparações, ao invés de tentar realmente saber a verdadeira razão de estar vivo.

10 – Não conversar com estranhos. Falar mal do vizinho.

11 – Sempre achar que os pais estão certos.

12 – Casar, ter filhos, continuar juntos mesmo que o amor tenha acabado, alegando que é para o bem da criança (que parece não estar assistindo as constantes brigas).

13 – Criticar todo o mundo que tenta ser diferente.

14 – Acordar com um despertador histérico ao lado da cama.

15 – Acreditar em absolutamente tudo que está impresso.

16 – Usar um pedaço de pano colorido amarrado no pescoço, sem qualquer função aparente, mas que atende pelo pomposo nome de “gravata”.

17 – Nunca ser direto nas perguntas, mesmo que a outra pessoa entenda o que se está querendo saber.

18 – Manter um sorriso nos lábios quando se está morrendo de vontade de chorar. E ter piedade de todos os que demonstraram os seus próprios sentimentos.

19 – Achar que arte vale uma fortuna, ou que não vale absolutamente nada.

20 – Desprezar sempre aquilo que foi conseguido com facilidade, porque não houve o “sacrifício necessário”, e, portanto não deve ter as qualidades requeridas.

21 – Seguir a moda, mesmo que tudo pareça ridículo e desconfortável.

22 – Estar convencido que toda a pessoa famosa tem toneladas de dinheiro acumulado.

23 – Investir muito na beleza exterior, e se preocupar pouco com a beleza interior.

24 – Usar todos os meios possíveis para mostrar que, embora seja uma pessoa normal, está infinitamente acima dos outros seres humanos.

‘Paulo Coelho’

HÁ MESMO CHUVA DE RÃS E SAPOS

Apesar de ser um fenômeno muito raro a “chuva” de rãs, sapos e outros pequenos animais como peixes e lagartixas; já foi registrada em vários lugares do mundo. Mas não comece a pensar em pragas bíblicas porque a queda do céu destes bichinhos desafortunados pode ser facilmente explicada cientificamente.
A causa na verdade é bem singela. As fortes correntes ascendentes de alta intensidade podem absorver ou empurrar para cima qualquer objeto ou animal que não tenha sido suficientemente precavido para procurar um refúgio. Por isto ninguém ouve falar em chuva de toupeiras ou coelhos, que procuram abrigo rapidamente em caso de tempestade.
Uma vez empurrados pra o núcleo da tempestade ou tornado as correntes ascendentes os mantêm dentro das nuvens, sendo fustigados por fortes correntes de ar até que a tempestade perca intensidade. Aí então, tudo o que tinha sido absorvido pela tempestade cede ante a gravidade e cai, criando uma verdadeira “chuva”.
Quando estudamos as correntes de ar que; se encontram dentro das tempestades vemos que não é estranho que isto aconteça, já que os ventos ascendentes podem chegar a 200 km/hora, capazes de lançar para o alto qualquer objeto que tenha sido absorvido. Este fenômeno, já matou vários praticantes de asa-delta que, por um excesso de confiança, voaram perto de mais de um tornado e acabaram sendo empurrados te ao “cume”, a mais de 11 mil metros de altura. A esta altura as temperaturas são tão baixas que qualquer ser vivo morre congelado. Alguns pilotos chegaram mesmo a tentar desprender-se da asa-delta para lançar-se em queda livre, mas os ventos eram tão intensos que eles foram empurrados para cima da mesma forma.

sábado, 7 de junho de 2008

VORAGEM

Rostos que nunca vi, jacintos murchos cujas sonatas frias me tocaram, estes rostos não quero: eles são breves no desfile das pálpebras cerradas. Penso naqueles outros, familiares rostos de toda a vida. Cataventos da rua ainda sem nome, alagadiço porão da infância, arpejos e trigais, dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho, estes semblantes nunca repetidos, graves alguns, mas todos inseridos na memória dos dias voluntários. Cemitério, talvez, dessas lembranças, todas, em mim, são rosas e crianças.

Jorge Tufic

SONETO DE ORBE E DE INFINITO

Agora faço a viagem, que raios itinerantes, qual espírito, Desentranham o sonho da matéria, enchem os espaços De onde o dia se põe aceso e solta os pássaros, Invadem a sala, mobiliam a casa de luz e de infinito. Os pássaros itinerantes aliam-se aos ventos e aos rochedos E, nessa viagem, de corpo inteiro, cada dia seu coletam. Acordo então e ponho-me a pensar nesses segredos, Em todos esses obstáculos de ave que em nós se hospedam. E a buscar respostas nessas rarefeitas estâncias, Do pêlo um desejo urgente cresce e me revista; Na boca a fala em dentes se recama no revôo De palavras secas e esquisitas, qual energia Que cai nos poros e, liberta, como aves, se inicia Na colheita da vida que nos cerca e nos irradia.

Marcelino Botelho