sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

“MÁGOAS PARADAS”

Outra vez, a vida real finge ser romance.
O episódio vivido pelo adolescente que usou fantasia de ninja na internet para fazer ameaças aos colegas tanto poderia estar nas páginas de Raul Pompéia em O Ateneu quanto nos capítulos de Robert Musil em As desventuras do jovem Torless.
Nunca saberemos o seu nome. Melhor assim. Guarde as suas magoas no anonimato, embora sejam estas de domínio publico. E estão longe de ser desgostos de ficção. Esse menino sofria de verdade. E agora deve estar sofrendo ainda mais.
Nunca conseguiu entender essa com`pulsão instintiva, aparentemente congênita dos mais jovens pelo sofrimento do outro. Os apelidos que flagelam, as referencias que humilham, as alusões que degradam para mim sempre foram, desde os tempos de escola, um grande mistério na trama biográfica de personagens que jamais foram ficção.
O prazer em testemunhar essas flagelações publicas muitas vezes não se inibe em realçar um preconceito, em expor um defeito físico ou uma amargura sepultada de família que a crueldade dos demais faz de tudo para exumar.
No final quanto mais triste, mais divertido.
E quanto mais resistência esboçar o ofendido, mais sucesso terá o escárnio.
Alvo fácil da chacota e do desapreço, tudo quanto esses meninos queriam na vida era passar despercebidos. Numa idade em que todos querem ser notados, admirados, idolatrados. Todos, menos os ultrajados. Os psicólogos, naturalmente, sabem disso. E, por certo, não abandonarão o moço nesta hora. Mas como será a convivência deles todos doravante? Terá servido de lição o triste evento?
Penso que é hora dos colégios começarem a planejar mais atividades de relacionamento verdadeiro. Algo que pretenda festejar mais do que um simples golo numa partida de futebol e que seja mais efusivo do que as imagens gravadas no orkut.
Aristóteles ensinava aos seus alunos caminhando pelas alamedas ensolaradas do seu tempo. A escola moderna vê-se cada vez mais emparedada pelos recursos tecnológicos, pelo confinamento dos muros altos, apartada como nunca do mundo da natureza. O universo virtual da internet é a única natureza que esses jovens conhecem.
Tanto é verdade que foi nesse mesmo lugar que o menino triste vestindo de ninja ganhou coragem de contar as suas magoas paradas no único mundo que ele conhece. E de pedir, à maneira dos meninos tristes, que os seus colegas não o magoassem mais.

“Luiz Augusto Crispim”

“Lá fora onde árvores são”

Lá fora onde árvores são
O que se mexe a parar
Não vejo nada senão,
Depois das árvores, o mar.
É azul intensamente,
Salpicado de luzir,
E tem na onda indolente
Um suspirar de dormir.
Mas nem durmo eu nem o mar,
Ambos nós, no dia brando,
E ele sossega a avançar
E eu não penso e estou pensando

Jardim dos Sonhos

Construí nas nuvens um jardim
Com as mais variadas flores
Algumas cor de carmim
Outras com a cor das minhas dores...
Mas são todas tão belas
Mesmo as que me recordam tristezas
Já não vivo sem elas
Tiro sustento de suas belezas...
Elas são a minha cria
E me aquecem na noite fria
Com elas não me sinto só
De mim elas não tem dó...
Mostram meus erros
Demonstram meus acertos...
Nas nuvens fiz um aterro
Pra minhas flores cultivar
E já possuo um grande acervo
Dessas plantas que existem só pra me amar…

(Autoria: Louca por Poesia)

ESTHER

Eu sempre quis ter para mim uma mulher chamada Esther; assim mesmo sem mais delongas; pura e simplesmente... Esther. Num cochilo de moral, invejo Jorge Luis Borges, que ofereceu a uma pessoa homônima, o seu “ficciones”, talves o livro mais importante do argentino.
E eu o que teria para dar á minha adorável Esther?
Quem sabe não guardara para Ela todos os meus instantes de isolamento? E nesses lapsos de solidão, um silencio cortado apenas pela pronúncia de seu nome anteparo da insanidade. E sibilando em delírios febris, eu diria: Esther! E nada seria consumado.
A minha Esther fora parida de uma aventura à Espanha. Nascera em um navio cargueiro, depois de um vento que soprava do leste – pois assim tinha que ser. Crescera na região da Catalunha, no município de San Sadurní d’Anoia; Esther era extremamente ruiva, exalava um perfume de parreira, pisava o chão descalça, e se vestia feito quem se despia. Ali, tornara-se a mais cobiçada das mulheres.
No entanto, a minha Esther não servia para casar: com dotes de culinária e preocupada em cingir a roupa do marido. Esther tinha qualidades de cama. Atrevida, era ela. Amável, era Esther. Mas, ninguém sabia em qual delas acreditar. Esther era ferida por dentro – mas nunca a vira de luto. Esther não tinha mais de trinta anos, parece que já nascera com aquela idade; imagino que não teve tempo para ser menina. E cheguei a pensar que ela havia guardado os anos do viço primaveril para passá-los comigo.
A minha Esther comeria com as mãos; e faria do alimento, a eucaristia. Ela não tem nada a ver com a Esther que tem fama de ninfeta nas praias do Recife; ou sequer assemelhar-se com a Esther, dona de um famoso cabaré parisiense; ela não é, tampouco, parenta da ‘puta’ colombiana, mulher do cartel de Medellín. Esther também não se parece, com a lavadeira paraibana, que anda léguas, com uma lata na cabeça.
A minha Esther é uma quimera.
Amar Esther era o mesmo que começar a perdê-la. Viveríamos uns tempos num apartamento de sala e quarto, com vista para um beco, onde a lua nunca refletia, e onde os gatos no cio – imitavam o nosso coito. Comer Esther, embora seja uma expressão canibal, é a definição mais próxima da verdade. Esther seria alguém para se mordiscar, literalmente, os bocados de carne de seu corpo. “Trepar” com Esther é confissão vulgar; ela não é só desejo. Esther é um composto formado de tudo que é mal-intensionado. Ela é a minha penitencia. E, por isso, a minha Esther, não terminaria essa história ao meu lado. Seria uma lembrança, um instante lacônico, uma saudade – e isso já seria mais que aceitável; um romance.
Ninguém poderia amar Esther. Ela não toleraria. O amor confunde as pessoas. Talvez eu não soubesse, mas Esther sabia que o amor consumiria a nós dois. Quem ama não se contenta com sala e quarto. Apenas a paixão permite “trepar” no telhado – onde só dali se vê as estrelas; onde os carros não passam de vaga-lumes, provocando a noite. E as pessoas, são apenas pessoas infames, sem graça, ocupadas.
Antes de tudo, até mesmo da materialização de Esther, eu sabia que ela iria embora, na aurora que escolhesse; assim, sem comento. E mesmo tendo conhecimento disso, eu iria sofrer por Esther – e iria odiá-la, no primeiro minuto, com todas as minhas forças. E depois, mesmo sabendo também ser uma tolice, percorreria todos os nossos cantos: bar, praça, banca de miçangas.
E, desde o primeiro desses cantos, rezaria a oração que conhecesse, e o faria tão alto, que isso a encorajaria a continuar fugindo.
A minha Esther não era para ser de ninguém. Ela era uma poção de magia – que se coloca num caldeirão fumegante; um feitiço de mim. Esther não era para ser um pedaço do inferno para ferver o sangue de nossas veias; nem tampouco uma alucinação, uma fantasia que se encanta selva adentro para arrebatar a alma de quem a encontra.
Dizem que a Esther faz ponto na esquina da treze de maio.

Misael Nóbrega de Sousa

“IMAGINE”

Imagine que não exista nenhum paraíso,
É fácil se você tentar.
Nenhum inferno abaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagine todas as pessoas
Vivendo pelo hoje...

Imagine que não exista nenhum país,
Não é difícil de fazer.
Nada porque matar ou porque morrer,
Nenhuma religião também.
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...

Imagine nenhuma propriedade,
Eu me pergunto se você consegue.
Nenhuma necessidade de ganância ou fome,
Uma fraternidade de homens.
Imagine todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.

Você talvez diga que sou um sonhador,
Mas eu não o único.
Eu espero que algum dia você junte-se a nós,
E o mundo viverá como um único.

Imagine
John Lennon

“GRACILIANO RAMOS, POR ELE MESMO”

Em 1948, aos 56 anos de idade, o escritor Graciliano Ramos compôs, com frases secas e diretas, o seu auto-retrato. O texto abre o site oficial sobre o “Velho Graça”, como era chamado. O curioso é que, falando dele mesmo, escreve na terceira pessoa como se estivesse fazendo anotações biográficas de um sujeito qualquer:
O Cem Réis de Prosa repassa esta preciosidade aos leitores. Vejam como Graciliano se auto - definia:

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato nº 41.
Colarinho nº 39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos.
Meio calvo.
Não tem preferências por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à musica.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu “caetés” com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
É ateu.
Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia.
Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel António Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego, e Rachael de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manha
Fuma cigarros “Selma” (três maços por dia)
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio da Manhã”
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-lhe indiferente estar preso ou solto.
Escreve á mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Linz do Rego e José Olympio.
Tem poucas dividas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer aos 57 anos.

“ETERNO NAMORO”

Conflitos e discussões são inevitáveis em um relacionamento. E não é necessário ter conhecimento de causa, ou até mesmo presenciar algum tipo de desentendimento entre cônjuges para ter a certeza de que existem diferenças entre as pessoas. Até mesmo aqueles casais que são exemplo de respeito, carinho, atenção e amor aprendem dia a dia como agir, adaptando as suas atitudes para a manutenção da relação.
Para saber se um casal tem “futuro” basta avaliar como lidam com determinadas situações. Há casos em que te mesmo desavenças passageiras são capazes de alterar a vida conjugal. Obviamente, ninguém em meio a uma acalorada discussão tende a ressaltar qualidades do outro, dizendo “você é uma pessoa com grandes qualidades, inteligente, sagaz, intrépida...”
Ao contrario, inda que a pessoa tenha todas essas qualidades e virtudes, seriam afogadas no mar de palavras pejorativas. Por isso, é necessário ter cuidado sempre, calculando os resultados.
Dificuldades financeiras e conflitos familiares são os problemas mais recorrentes. Sem perceber, mesmo em momentos de intimidade, o teor da conversa esbarra em problemas difíceis de serem digeridos. É como se o casal adotasse um novo vocabulário, muito diferente das doces palavras pronunciadas à época de namoro. Pouco a pouco, o distanciamento torna muitas situações insustentáveis, transformando um casal feliz em pessoas amargas e mal sucedidas.
A sincera disposição para o dialogo amoroso pode ser o estimulo que faltava para salvar um relacionamento adoentado. Às vezes é necessário ceder. Longe de ser uma demonstração de fraqueza, trata-se de um ato de grande bravura.
Relacionamentos amorosos tem discussões e desavenças. É utopia pensar o contrario. O que vale é saber que o seu casamento não se concretizou apenas no dia da cerimônia, diante do sacerdote e das juras de amor e fidelidade proferidas diante dos presentes. Esses votos devem ser renovados a cada novo dia, tendo como bagagem a experiência de toda a convivência.

“José Eduardo de Moura”