sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

OCULTAR OU DISSIMULAR A IDADE

Creio que não são apenas as mulheres que gostam de negar a idade, pois assim se anda comportando o meu gênero. Homens, até os mais viris, também pintam o cabelo para esconder que viveram muito. Festejam as mulheres a dominação dessa recorrente e crescente mania.
Caminhava um amigo pela praia, quando, ao passar por uma pelada, o jogador mais respeitoso gritou:
- Pára a bola para o velho passar!
Ele olhou de lado, para trás e viu apenas o mar e mais ninguém. E assim constatou que era ele o idoso. Sem apressar o passo, indiferente e de cabeça erguida, porem irritado, aproximou-se de mim, logo depois do “tudo bem” convencional, começou a reclamar do desrespeito dessa “juventude de hoje”.
- Veja só!
O insolente gritou alto para todo o mundo ouvir. Tentei explicar que o jogo só pararia se todos ouvissem o delicado atleta. Mas, ele não se convenceu:
- Que indelicadeza! Quem disse a ele que eu sou velho? Como sabe o ano em que nasci? Não viu a minha identidade! Ora, ora, ainda posso jogar futebol. Decidi me calar para encerrar o assunto, sem antes reconhecer sua jovial disposição. Não agradeceu. Apenas retrucou, apagando qualquer rastro de ironia.
- Jovem, jovem, não. Mas tenho vigor e espírito jovem. Dizem que aparento ter uns dez anos menos. Decidi ouvi-lo como se estivesse de acordo, sem interromper as suas repetidas ponderações. E no final, como numa condenação conclusiva, sentenciou:
- Equivocados!
O episodio me fez lembrar outras experiências nas filas de bancos e de supermercados; a rejeição do Caixa dos Idosos; os protestos contra a bengala ao simbolizar terceira idade e os que, muito à surdina, vêm andando de ônibus gratuitamente. E tantos abusos e insultos.
Não se pode ser feliz, negando a existência de um estado irreversível de coisas. Há situações que são imutáveis. Ocultar o tempo, espaço ou circunstancia em que se nasceu nada muda, é tentar apagar o passado ou não aceitar a si mesmo. Quanto à idade, é bom seguir Alceu Amoroso Li a, em “Idade, Sexo e Tempo”: usufruir plenamente a idade que se vive. Carpe Diem! Quanto ao espaço, procurar um lugar melhor não substitui a necessidade de mudança em nós mesmos. Nesse sentido, o mundo não é maior do que a cidade onde se mora. Mas, quanto ao tempo, ele é inexorável. Ri da lentidão e da pressa. É implacável, não espera conveniências tampouco vaidades. Hoje, vigia-se o passar dos átimos e dos dias e entre números e ponteiros se lê a cruel advertência. Tempus irreparabile fugit (o tempo foge de modo irrecuperável). E assim o acompanham as mais jovens idades e a nossa faixa etária mais ou menos idosa.

‘Damião Ramos Cavalcanti’

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