terça-feira, 22 de maio de 2007

DE PASSAGEM

As pessoas estão partindo mais do que verdadeiramente ficando.
Já reparou?
Dou-me conta desse regime de deserção, descendo a colina do mosteiro que visito quase toda a semana.
Um olhar profundamente desolado acompanhava a sentença daquele meu amigo monge, em sua reflexão melancólica:
- De facto, os jovens de hoje em dia...

Não terminou a sentença. Nem precisava. Bastava que eu espiasse o mundo em redor para entender o que ficara em estado de reticências.
A pequena comunidade que vive naquele lugar dos agrestes pernambucanos, ficou ainda menor com a partida de mais um irmão que se preparava para receber os votos.
Os jovens de hoje em dia...
Posso entender a dificuldade dos seminários, dos mosteiros e das clausuras vazias, mas também dos colégios, dos ginásios, dos estádios e das danceterias assediadas pelos mercadores de ecstasy, e os traficantes de todos os pós mágicos que circulam por ai.
A concorrência é mesmo desigual.
A oração e o trabalho, o jeito simples de fazer as coisas, o bagulho e o ócio do outro. A diferença que separa uma vida da outra é maior do que poderá supor toda a nossa vã filosofia. Mas, com certeza, é mais fácil ficar com esta última.
Não quer dizer que todo o jovem esteja à beira do consumo das drogas ou que só possa conhecer a virtude se fizer voto de pobreza e prestar compromisso de castidade diante de Deus.
Não é nada disso.
Mas o mundo parece ter perdido o gosto de ser jovem com simplicidade.
A juventude ficou emaralhada em fios ligados ao computador, que se conectam ao videogame, e se retransmitem ao hometheater, no mesmo ritmo dos bailes de funk, no mesmo batidão insurdecedor que dá embalo à vida. Não existem mais prazeres operando em off-line.
Por outro lado, o compasso do viver ficou tão alucinante para os jovens que eles já não se enxergam mais como são. Viraram criaturas de hábitos nocturnos, que só se reconhecem na escuridão do mundo. Quando se tocam, no ritual de ir e vir (e de ficar) é sempre com ánimo de partir - nunca de se entregar.
São toques que maltratam mais do que acariciam.
Toques de quem está sempre partindo, mesmo quando se revela na intenção de ficar.

- Luiz Augusto Crispim -

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